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���� NA TELHA

02/11/2004 12:58

Transexuais

A minha adolescência foi marcada por alguns episódios de estupidez que fariam um ogro sentir-se envergonhado. De todas, as saídas com amigos em carros velozes, com caixas inteiras de ovos e garrafas cheias de urina para jogar em travestis, foram as mais cretinas. Até que um dia a coisa saiu do controle: agredimos um deles. Felizmente ele – ou ela, sei lá – não ficou gravemente machucado. Levei quase duas semanas sem dormir direito, tendo pesadelos e uma pressão enorme no peito. Fui ensinado a odiar pessoas diferentes de mim e aceitei. Talvez aquela pobre criatura tenha atravessado o meu caminho para me livrar daquela lavagem cerebral.
Há pouco tempo atrás, estava em um bar considerado GLS e vi um transexual enorme sair de um táxi. O engraçado é que até o público gay olhou meio diferente para ele. O que os travestis são, afinal? Não é uma questão de opção sexual, é uma transformação do corpo, da mente e da postura. Sem contar que é condenar-se ao isolamento social, se expor a agressões gratuitas de gente ignorante como eu era. Só que hoje a violência é completamente banalizada, diferente de dez anos atrás. Que tipo de necessidade leva alguém a comprar essa briga? Sou como a maioria das pessoas: preciso de esclarecimento. Sem preconceito, apenas quero saber se essa coragem vale a pena.
A mídia sempre faz o papel de vilã. Apenas matérias sensacionalistas são divulgadas, reforçando a péssima imagem dessa gente. Quando se fala em um crime, revelar a presença de um travesti dá uma grande relevância – negativa, é claro.
Até mesmo em casos de transexuais famosos como Roberta Close, por exemplo, fica claro o pavor: “você comeria a Roberta Close?”. Essa é a frase mais comum e que sendo traduzida para uma versão mais honesta ficaria: “você comeria esse monstro, mesmo ele sendo atraente e cheio de glamour?”.
De vez em quando me volta a terrível lembrança da surra. “Não façam isso, garotos! Eu não tenho culpa! Só estou tentando ganhar algum para sobreviver, não estou incomodando ninguém!”. Sempre que essas palavras gritadas por ele me invadem, sinto vontade de chorar. Muita vergonha mesmo. Não me acho no direito de sentir raiva dos meus pais, porque eles tiveram o mesmo ensinamento e achavam que estavam fazendo o melhor por mim. E o que é foda é ter que admitir que a sociedade é assim e, se for mudar, eu, com certeza, não estarei vivo para ver. Esse sofrimento... Isolamento... O que faz isso valer a pena? Ser apenas gay já não é bastante difícil? Ter que lidar diariamente com hipocrisia, intolerância e muitas vezes rejeição familiar... Realmente são pessoas muito mais fortes do que eu, que já encontrei as regras ao meu favor e tenho a proteção e a permissão social de ser um ignorante e ouvir aplausos.

enviada por D.Angelis






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