28/12/2004 16:03
Não mais com dono
Quando ninguém esperava nada de imprevisível, ela recebeu o corpo. Abriu a boca e de forma delicada deixou entrar na sua boca. Deixou pousar em cima da língua e em silêncio se manteve. Ouviu atentamente as preces, sentiu vontade de rir em alguns momentos. O homem de preto lhe encarava de vez em quando, forçando a retirada do sorriso de canto de boca. Circulou os olhos e viu sofrimento, almas angustiadas a procura de um refúgio. Carência e dor passaram a fazer parte do que antes era engraçado. Algumas coisas começaram a fazer sentido; uma delas era a presença daquele homem imponente, levemente grisalho, que em sua fala deixava clara toda a sua arrogância. Não pensou duas vezes em mastigar. Esmagou e triturou a imponência e a presunção. Fez pouco caso da salvação alheia e depois de transformar tudo isso em uma sopa nojenta, cuspiu aos pés do homem. Ele, incrédulo, ficou mudo e constrangido. Uma senhora com um guarda chuva velho em mãos se aproximou dela e perguntou o motivo daquilo. A resposta veio com um olhar. Vagarosamente, a idosa foi se afastando e começou a mastigar e sorrir. Uma felicidade sublime invadiu o semblante daquele velho corpo e outros começaram a repetir o gesto. Os sapatos pretos que naquele momento já não era tão imponentes, se encheram de lama que um dia tinha sido sagrada. Mas naquele momento nada mais era do que escória. E ela gargalhou como nunca, acompanhada por um barulhento coro.
enviada por D.Angelis
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