18/12/2004 03:59
Os olhos que não se olham
Somente ela sabia o que era verdade. Nunca colocava as cores nos seus devidos lugares, tinha medo de formar um arco-íris. Seus passos, sempre doloridos, os sapatos apertavam, tinha dificuldade, não gostava de ser notada. Sempre imaginou que uma península pudesse se soltar e aguardou praticamente a vida inteira ver isso acontecer. Nas suas verdades estavam as seguranças necessárias para isolar a única peça que afirmava negação. A vida que passa na velocidade da luz parece ser lenta em pensamentos. No boneco estão muitos segredos guardados cuidadosamente, lembranças de equívocos tão repetidos que inutilizam a genialidade. O papel se manteve o mesmo, passou de mão em mão e nenhuma linha foi acrescentada. Mas ela imagina o contrário. Não há como preservar se desconhece a preservação. O pacto com o Diabo mostrou rapidamente o seu alto preço. Tudo lhe foi dado: as resoluções acertadas, o pente que não embaraça no cabelo e o desleixo que causa audição em demasia não é exatamente coincidência. O peito em ponto de ebulição sufocado pela limitação e vergonha da verdade. Ela teve que fazer a sua escolha e sua televisão continua alimentando a própria incapacidade. A isenção de ignorância e o atropelo debaixo do próprio carro debocham da frustração. Parada, apenas a indiferença do mundo para com ela é o que resta. E por mais que se tente, não adiantou muito tentar inverter os papéis e ficar confortável. Basta olhar para a seqüência de sua evolução, virando-se de costas. E como repetição teimosa, a solidão será inevitável. Mas o amor continuará sempre em torno de si.
enviada por D.Angelis
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